O centro de São Paulo está acostumado com ruas cheias. Mas neste sábado e domingo, 26 e 27 de abril, as ruas, praças e boulevares foram tomados por tribos sem gravata e muito menos pressa. Famílias numerosas, turistas de outros estados e estrangeiros em visita ao Brasil coloriram a cidade com matizes distintas, de todas as idades e segmentos sociais. Do alto do 26 palcos, além de comandar os espetáculos, artistas juntaram-se ao público e declararam sua paixão por São Paulo. A baiana Gal Costa e o inglês Paul Di’Anno puxaram o coro. Na Praça da República, o ex-vocalista da banda Iron Maiden disse que escolheu a Cidade para viver e nela deseja morrer. “Eu amo São Paulo e foi aqui que escolhi estar”.
Com um público estimado entre 3,5 e 4 milhões de pessoas, a Virada Cultural já se tornou o maior evento cultural do país e o maior do gênero do mundo. Com um aporte de R$ 90 milhões à economia local, o festival consolida-se como grande evento da cidade de São Paulo. Não houve registros relevantes de ocorrência policial.
Longe do Centro, a Virada também movimentou esperanças e alegrias. Nas 26 unidades dos CEUs o público pode acompanhar artistas de primeiríssimo time como Yamandú Costa, que se encantou com a estrutura do CEU Pêra Marmelo, no Jaraguá. A festa foi sucesso também no SESC, com cerca de 95 mil pessoas lotando as doze unidades da instituição. No Museu da Casa Brasileira, 2500 pessoas foram conferir a programação especial para a Virada, como a apresentação da Banda Glória, que levou 1200 pessoas ao museu na noite do sábado. Já no Museu da Língua Portuguesa foram mais de seis mil visitantes. No sábado, entre às 18 horas e meia-noite, horário excepcional de abertura, 1120 pessoas visitaram a instituição.
De jazz à MPB, passando pelo hip hop, rock, as maiores jam sessions e rodas de samba do mundo, a programação da Virada Cultural trouxe também concertos, espetáculos teatrais, performances, exibições de filme e discotecagem de música eletrônica. Os palcos mais animados foram os da Avenida São João, o Boteco dos Bambas, no Largo Santa Ifigênia, e o Rock República. Na abertura, no palco São João, a cantora cabo-verdiana Cesária Évora cantou o Brasil e manifestou a alegria de abrir uma festa no País que sonhou conhecer desde a infância.
“A marca zero de incidentes é uma demonstração de que pode-se realizar grandes evento, com tranqüilidade, sem medo e insegurança, comemorou o prefeito Gilberto Kassab“. E o público recorde mostra que o Brasil também adotou a Virada Cultural”.
A cada ano a Virada Cultural cresce um pouco mais e ganha novos espaços. Na edição passada, foram cinco grandes palcos no Centro. Neste ano, aumentou para 26 – dos quais, 24 tiveram programação nas 24 horas da festa. “As pessoas responderam bem à Virada de 2007 e sentimos que havia espaço físico para ampliá-la”, ressalta o secretário de Cultura do município, Carlos Augusto Calil. “Nunca houve tanta gente no centro de São Paulo”, comemora o secretário.
O coordenador da Virada Cultural, José Mauro Gnaspini, também celebrou a presença dos paulistanos e visitantes nas ruas da Cidade. “Foi sensacional, mesmo nos locais onde não funcionavam palcos ou atrações programadas havia pessoas caminhando, sentadas em bares ou restaurantes. Fechamos o Centro, tiramos os automóveis e a Cidade voltou a ser como era. As pessoas redescobriram o Centro, que virou um grande boulevard”.
Movimentação econômica
Parte significativa dos 4 milhões de pessoas que passaram pela Virada é formada por turistas, que vêm sobretudo das cidades do entorno metropolitano e do interior do Estado. Dada a grande oferta de atrações de qualidade, o evento chama cada vez mais atenção de outras regiões do país e até do exterior. Este ano, SPTuris trouxe 120 operadores de turismo, do Brasil e América do Sul, para conhecerem o evento, que já se transforma num importante produto turístico da cidade, a exemplo da Fórmula 1 e da Parada GLBT.
Apesar da grande movimentação econômica, a Virada Cultural não recebe nenhum tipo de patrocínio privado. “Foi uma decisão que tomamos, de que a Virada é um evento da cidade e de todos os cidadãos”, afirma Caio Carvalho, presidente da SPTuris. Ele explica que o montante de R$ 90 milhões é calculado a partir das sondagens feitas na edição passada, quando foram pesquisados os gastos per capita e o tempo de permanência dos turistas na cidade em função do evento. “A Virada representa muito bem o posicionamento de São Paulo no Brasil e no Exterior como o grande pólo cultural da América Latina, além de reforçar o estilo diverso de uma cidade que pulsa 24 horas por dia”, afirma.
A Fórmula 1 e a Parada GLBT são os dois eventos mais lucrativos da cidade e movimentam um montante de R$ 200 milhões e R$ 150 milhões, respectivamente. Também superlativos são os números da SP Fashion Week (R$ 85 milhões), do Salão do Automóvel (R$ 55 milhões) e do Carnaval (R$ 40 milhões), que esquentam o setor de turismo na cidade, com grande ocupação da grade hoteleira.
Pontos altos da Virada
A apresentação da trupe O Teatro Mágico, que mistura música, poesia, teatro e circo, empolgou as pessoas que compareceram ao palco São João, instalado no cruzamento da avenida São João com a rua Aurora. O público conhecia as letras e todos cantavam junto as músicas, surpreendendo os componentes do grupo. Na madrugada, o show mais animado foi o de Zé Ramalho.
O som não parou de rolar na Pista da XV de Novembro. Das 18 horas de sábado até às 9 horas deste domingo, milhares de pessoas dançaram ao som dos DJs Maxwell, Dabolina, Dee´Jump. O ponto alto foi a apresentação do DJ Mau Mau.
No Baile do Arouche, pessoas de todas as idades acompanharam os shows, com destaque para Maria Alcina, que interpretou seu disco de 1974, e o cantor de boleros Roberto Luna. Gal Costa cantou a Cidade com músicas em homenagem a São Paulo, como “Trem das Onze”, de Adoniran Barbosa, e “Sampa”, de Caetano Veloso, muito aplaudida pelo público do palco São João.
O grupo francês Générik Vapeur, especializado em teatro de rua, monopolizou as atenções de centenas de pessoas em um cortejo que passou pelas escadarias do Teatro Municipal e pela frente do Shopping Light. Pintados de azul e comendo alface, os atores tocavam tambores e foram seguidos pela multidão entusiasmada.
As performances de rua não pararam durante toda a madrugada,contagiando o público. Palhaços, malabaristas, estátuas vivas, guindastes com acrobatas suspensos, bloco de músicos e dançarinos de maracatu.
Amilton Godoy, Osvaldinho do Acordeon, Heraldo do Monte, Hector Costita foram alguns dos músicos que participaram das Jam Sessions no Palco Instrumental Brasileiro, no Boulevard São João.
Durante as 24 horas da Virada Cultural, muitos passaram pela experiência inusitada de participar de uma balada silenciosa. Cada participante do projeto holandês Silent Disco recebeu um fone de ouvido e dançou ao som do DJ por cerca de uma hora. Durante toda a madrugada a fila engordava na busca por um dos 500 fones de ouvido disponíveis para o público.
Tom Zé lotou o jardim da Casa das Rosas. Quem não conseguiu um lugar mais perto, assistiu ao show das janelas e varandas do casarão da Avenida Paulista. A Casa da Rosas ofereceu um café da manhã aos 200 visitantes que fizeram fila às 5h30 para retirar a senha. No SESC Pompéia o público também participou de um café da manhã.
A Cia. Nova Dança 4 apresentou, às 20h, a Intervenção Antropofágica no espaço punk da exposição Vida Louca Vida Intensa – Uma Viagem pela Contracultura. A exposição ficou aberta durante a Virada e quem esteve no SESC Pompéia assistiu a mostra de cinema que integrava o evento.
Outro grande momento foi o público aplaudindo de pé o espetáculo de dança do Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no Palco da Dança, no Vale do Anhangabaú, com a participação de Ana Botafogo. O famoso balé “Giselle” conquistou e emocionou toda a platéia.
Vários atores do grupo Ares Atelier de Performance escalaram a fachada do Shopping Light, no Viaduto do Chá, com muita música e iluminação cenográfica, utilizando cordas para fazer a escalada do prédio, considerado um dos mais belos da região central da cidade.
O Palco das Meninas, na Avenida Ipiranga, ganhou a cumplicidade do público desde o primeiro show, com a jovem cantora Mariana Aydar, uma das revelações da cena musical paulista. Fernanda Takai encerrou a programação do palco.
Apoios
O governador José Serra marcou sua passagem pela madrugada na Virada Cultural com um enorme sorriso de orgulho, afinal foi ele o criador do evento: “Tenho muita satisfação porque a Virada provou que era realmente uma necessidade. Um governante põe em prática muitas vezes idéias que vêm de assessores, mas a Virada foi uma idéia minha que o Carlos Augusto Calil batizou com esse nome e ajudou a viabilizar. E o melhor é que a população, desde a primeira edição, acolheu, apoiou e tomou conta da Cidade de uma forma alegre, inteligente e através da cultura em diferentes manifestações artísticas”.
O diretor regional do SESC São Paulo, Danilo Santos de Miranda, observou que “o paulistano se faz presente nos mais diversos espaços culturais quando tem as condições para isso, tais como transporte, segurança e uma programação de qualidade à sua disposição. Mais uma vez, a Cultura demonstra sua força como agente motivador da participação social, da economia e da educação para a cidadania. A rede SESC integrou-se plenamente neste espírito, atraindo um publico de 55 mil pessoas até as 10 horas da manhã de domingo”.
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