2005: Paulistano assume a Virada em clima de paz

Em 24 horas muita coisa pode acontecer. Mas quando há cultura acessível em toda a cidade para uma população como a que vive em São Paulo, os fatos têm demonstrado que o resultado é alegria, confraternização, cumplicidade e nenhuma violência. Este vem sendo o retrato da Virada Cultural, desde sua primeira edição, nas 24 horas entre o meio-dia do dia 19 e 12 horas de 20 de novembro de 2005. Idealizada pelo então prefeito José Serra, a Virada tornou-se marca da cidade, repetindo-se em 2006, em maio, um mês menos marcado pelas chuvas. A Central de Operações da Polícia Militar (190) não registrou qualquer ocorrência nos mais de 100 eventos da Virada Cultural. As 25 viaturas de socorro médico, incluindo ambulâncias UTI que ficaram de plantão em cada um dos locais de grande afluxo de público, também não fizeram atendimentos de emergência. Para a Virada Cultural, a PM colocou nas ruas um efetivo de 972 homens e 413 viaturas. A Guarda Civil Metropolitana (GCM) mobilizou um contingente de 1.013 homens e 113 viaturas. 47 bombeiros ficaram de plantão nos principais palcos do evento.

Um pouco de tudo

Um espetáculo pirotécnico simultâneo, de quatro minutos, tomou o céu paulistano à meia-noite, marcando a passagem do dia 19 para o dia 20 de novembro da 1ª Virada Cultural de São Paulo. Os fogos cobriram as mais de cinco mil pessoas que assistiam ao Cisne Negro com os bailarinos da Cia de Dança no palco montado no Museu do Ipiranga. O bom tempo animou o público, que levou banquinhos e cadeiras de praia para o jardim do Parque da Independência para curtir a programação à luz do luar. A chuva chegou, mas o ânimo do paulistano não arrefeceu. O público que acompanhava o Ballet Stagium, dançando músicas de Chico Buarque no palco do Ipiranga, ignorou a forte chuva e continuou assistindo ao espetáculo, abrigados sob sombrinhas e guarda-chuvas e na entrada do museu. Na Casa das Rosas, na Avenida Paulista, cerca de 300 pessoas lotaram todos os espaços nas apresentações de poesia, música e teatro durante a madrugada e ainda ficaram para o café da manhã. Cerca de duas mil pessoas nos espaços do teatro, lanchonete e rua central deixaram a madrugada do Sesc Pompéia com cara de dia. Essa vontade de participar foi observada durante todo o evento pelo secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil: “Nosso objetivo era oferecer de tudo para todos, e acho que conseguimos um ótimo resultado. O melhor é perceber que as pessoas puderam encontrar algo de si nessa programação, descobrir o que gostam. A Virada veio para ficar”. Em Parelheiros, por exemplo, o que seria um show na Praça Central foi ampliado com apresentações de grupos locais que se integraram à programação com shows de samba, rock, MPB e outros ritmos nos bairros Embura, Colônia, Vargem Grande, Praça do Trabalho, Nova América e Jardim Herplim. No Largo Piraporinha, em M´ Boi Mirim, grupos locais se incorporaram à programação e animaram a festa. Cerca de mil pessoas acompanham os shows. Os artistas também se envolveram com emoção e entusiasmo na Virada Cultural. Paulo Vanzolini, que fez um dos mais belos shows da Virada, com participação especial da cantora Vânia Bastos, não conteve a emoção ao ouvir o público de mais de 800 pessoas cantar a música que o eternizou na música popular brasileira. “Foi a maior emoção da minha vida cantar Ronda no Vale do Anhangabaú ao lado”. O dia amanheceu com o maestro João Carlos Martins a postos para reger a Orquestra Bachiana para o público que emendou a noite no palco do Museu do Ipiranga. De Norte a Sul. De Leste a Oeste. A cidade não parou um minuto. Cerca de 25 mil pessoas lotaram o estacionamento do Sambódromo no maior festival de música gospel do Brasil; o público foi sambar nas ruas em frente à Galeria Olido; um trio elétrico agitou a Rua Augusta; o teatro de rua invadiu a Capela do Socorro; a animação do reggae de São Miguel Paulista; e lotação no Museu da Casa Brasileira.